as orelhas de sua majestade alteza real d.rei i

performance a solo dias realizada nos dias 8, 9 e 10 de abril de 2022, Espaço QC –Quarteto Contratempus, Porto.
esta criação e apresentação inseriu-se no meu projecto de doutoramento (faculdade de belas artes da universidade do porto – 2019/2024)

música, textos e performance vocal e cénica – mário joão alves
espaço cénico – patrícia costa
cedência do espaço e apoio logístico – quarteto contratempus

um cantor à procura de si, será isto? um cantor que é este cantor, afinal. que cada um cantor não se quer igual a cada outro que não este, ou seja, eu. que isto é um espaço do eu, não tenhamos dúvidas, que o é sempre, e mesmo se quer que assim seja porque não há senão uma voz, dado que cada uma é diferente de cada
outra voz voz voz.
dia após dia vamos ouvindo vozes atrás de vozes e coisas atrás de coisas e outras à frente, que não param de aparecer de todos os lados pelos ouvidos adentro. o barulho entope a canalização dos olhos e perdemos o som das coisas. mas o grão das vozes, diria o outro, não se perde, e perdemo-nos por uma voz como nos perdemos por um jogo, por sermos sempre metade ou mais de metade criança, um saco de infâncias com orelhas de tamanhos diferentes.
a ópera que é o reino mágico das vozes, morre sem elas e morre por elas e morre. morre? depende da vida que sobra nas óperas onde, habitualmente, muita gente morre por lâminas de espadas, facas e venenos. demoram a
morrer, bem se sabe, os cantores, esperneando agudos até ao último suspiro. já talvez por isso,
mesmo morrendo, a própria ópera adoptou orfeu, especialista em trazer mortos ao mundo, de vivos mais vivos ou pelo menos a tentar sê-lo.

trata-se isto, então, mesmo, realmente, de quê?
sacudir as orelhas do tóxico da banalidade?
restituir-lhes uma centelha de inocência?
trazer-nos ao parque de jogos?

ouvir uma voz, esta voz, estas vozes, como quem espreita a fechadura? deixar a ópera dos gritos e fazê-la sussurrar? escutar os carros que passam ali na rua como peças de um jogo de caixa cage? não reconhecer uma história, propositadamentementemente, chegando o fim? ser rei dos nossos ouvidos, ouvindo-nos os
mecanismos do pensamento e daestupefacção por um minuto que seja? deixarmo-nos abraçar pelo gosto de ser ridículos? sentirmos as nádegas dormentes pela baixura e dureza de pequenos bancos?
E o rei, tem uma vida chata?