as sombras de uma azinheira

ópera de amílcar vasques dias com libreto de eduarda freitas (a partir do romance o homónimo do álvaro laborinho lúcio.

estreia – convento de são francisco, coimbra a 25 de abril 2025
récitas a;
03.05 – Teatro Garcia de Resende, Évora
17.05 – cine-teatro de amarante
24.05 – quartel das artes, oliveira do bairro

joão aurélio – andré henriques
catarina – tânia ralha
honório – hugo brito

música – amílcar vasques dias
libreto – eduarda freitas (a partir do romance homónimo de álvaro laborinho lúcio)
encenação – mário joão alves
figurinos – ana isabel nogueira

quinteto de cordas da ritornello
direcção – antónio ramos

esta obra composta pelo amilcar vasques dias foi dos desafios mais desafiantes – porque não dizê-lo assim, insistindo na ideia do desafio dobrado, triplicado, imensificado – com que me deparei diante de uma ópera.

porquê? (esta pergunta faço-a a mim próprio, agora)
a resposta não é óbvia. (mesmo agora)

terá sido, talvez, pela estrutura do libreto, onde a minha querida amiga e talentosa autora, eduarda freitas conseguiu a proeza de resumir a 3 personagens a densa população que habita o romance homónimo do álvaro laborinho lúcio.

ou então pela linguagem (texto e música) tão distante do meu universo mais familiar, por natureza mais luminoso, ligeiro, humorístico.

se calhar pelo cansaço de um ano tão cheio de pontos altos – uma etapa de montanha só com subidas de primeira classe (tese de dourotamento, um novo bebé em casa, o início de um novo desafio profissional – ainda em pleno movimento.

é sabido que o acumular de experiências, tidas em diferentes papéis, diferentes lugares, amplifica a nossa biblioteca de possibilidades estéticas e éticas sem que, muitas vezes, demos conta do alargar das prateleiras:
as leituras, os filmes, o trabalho com outros encenadores, a escuta, a observação.
mas a cada novo projecto gosto de sentir o vazio da casa partida. gosto da pergunta: e agora? de sentir o terror pela falta de soluções evidentes. pelo sem-chão da busca de outro caminho não desbravado pela minha mão.

eu desdenho a assimilação de processos. desdenho a possibilidade de ceder ao conforto dos caminhos já experimentados. revejo-me na ideia que paira em muitos dos textos do luis miguel (cintra), mas que num em particular aparece de forma muito explícita: “nunca quisemos aprender para usar esse saber. para pôr o conhecimento a render. porque isso nos aborrece. e por isso, de cada vez que atacamos um novo espectáculo, é como se começássemos outra vez pelo princípio”, escrevia ele a propósito de “oratória“, espetáculo da cornucópia de 1983.

esta ópera apareceu-me no colo exactamente assim: como terra virgem. ela podia ser tudo.
a paisagem sonora é densa, carregada.
a história é contada de modo não linear. os personagens estão carregados de cicatrizes. é um lugar de morte, de desespero, de perda. que lugar é este? que cores tem, que formas? – definir este lugar talvez fosse perdê-lo.

este passou a ser um lugar em trânsito. começa por ser um espaço de concerto e, progressivamente, os cantores, aparentemente num ensaio vão dando forma às suas histórias. cada um dos três assume a condução de uma das partes e todos os adereços de cena viajam dentro de uma mala que está na sua posse. os elementos cénicos mudam de função consoante a cena, os personagens ora estão vivos ora para lá da vida, ora são visíveis ora invisíveis. porque nada disso importa, aqui. importa sabermos o que move e convulsiona cada um. vamos percebendo o que levou cada um ao seu estado, o que o leva a contar a sua história.