11 novembro 2024 – 13 anos da ópera ISTO (I)
Num primeiro momento o Prendas propõe a criação de um espectáculo que explicasse o que é, afinal, uma ária de ópera. E então, pela primeira vez, depois de ter cantado umas largas dezenas delas, pergunto-me: o que é uma ária?
Num segundo momento pergunto-me: como vou explicar o que não sei o que é?
Num terceiro momento decido que talvez a melhor forma de explicar algo é escutar o seu fazer, para depois o fazer descrevendo essa escuta (espécie de lado b silencioso de um single de que tocamos o lado a)
Agora, o terceiro momento expande-se. Converso com o João Tiago, meu parceiro de gostos por fazer e o terceiro momento vai alargando depois de expandido.
A coisa só avança a partir do quarto momento. Esse é o momento em que falo com o José Lourenço, cantor que domina as singelezas do teatro e me parece pronto a procurar comigo perguntas para essa resposta “o que é uma ária?” usando da imaginação.
Nesse período sou um cantor com defeitos. Entre outros o de estar habituado a (primeiro) que me telefonem para ir fazer coisas, (segundo) a ter cenografia, figurinos e luzes feitos com um estalar de dedos, (terceiro) a imaginar esse universo como um espaço de uma dimensão inacessível para o manuseador comum.
O Zé explica-me então, a traço veloz, que tudo isso é treta. Que as nossas mãos e a nossa cabeça são o nosso único poder. Que as nossas coisas têm uma dimensão que é só nossa. Que só o óbvio não tem explicação, nem interessa explicar. O Zé ergueu um universo de pequenas coisas que me fez sentir que o nosso “o que é uma ária?” podia ser grande cá dentro e aos nossos olhos.
Demos um nome a isto ÓPERA ISTO e abrimos uma garrafa de champanhe. Fomos felizes logo no dia 11.11.11: a Paula, o Zé, o João e o Nuno.
Amanhã, 13 anos volvidos, estaremos juntos de novo, a montar cenários artesanais, a fazer luzes de cores infinitas, a cantar e saltar com a energia de sempre.
Amanhã e depois.


31.12.2024 – um ano à vista desarmada
mais um, oupa!
e que tal: artista e rapaz felizes?
ora essa, artista e rapaz feliz; somos o mesmo, todos sabemos.
mais um ano, anormalmente longo, visto por um lado; passado a voar, visto pelo outro. um ano é como um monóculo: olhando pelo lado de cá aumenta e visto dando a volta, diminuiu.
se olhar pelo retrovisor – que é um lado só – vejo do mais próximo para o mais distante. se olhar pelo coração começo pela naco mais delicioso, a ópera ISTO: na casa da música, na casa das artes de famalicão, no fiato, na póvoa de varzim, em espinho, 4 espectáculos diferentes a atazanar as pessoas.
vejo também o início de outubro e a defesa do doutoramento, esse dia do caloroso abraço entre o calvino, o fellini, o quignard, o azevedo e o nogueira, as orelhas do rei alongadas, a varrer o auditório. mas vejo sobretudo a cartografia geral que me inundou a biblioteca e as conversas de novos amigos.
depois foi cantar, escrever, compôr, encenar, ensinar e aprender.
Vamos lá por partes para fazer uma espécie de contabilidade:
escrita: o texto do eça é que é eça?, o libreto do auto dos zarolhos (ópera que há-de estrear em 2025 pela pena do maestro antónio vitorino d’almeida), os textos para a viúva alegre do teatro nacional de são carlos e, com um gosto muito particular o texto da o que é a ópera?, para o quarteto contratempus.
encenações: o eça é que é eça? com a nossa ópera ISTO, mais
a serva padrona com a operatória em condeixa, mais
o don tabarano com a ritornello em conímbriga, mais
o menotti afternoon, construído a partir de duas ópera de Menotti – amahl e os visitantes da noite e the boy who grew too fast, com o instituto gregoriano de lisboa, mais
o bicho das sete cabeças, contagiante projecto feito na Ourearte, com música do Nelson Jesus e texto da carmen zita ferreira, mais
o basculho de chaminé com a sinfonieta de ponta delgada, mais
o rouxinol do sérgio azevedo no teatro nacional de são João, mais
o que é a ópera, para o quarteto contratempus.
cantorias também não foram más:
estreámos o último canto, ópera do césar viana com a musicâmera e levámo-la por aí – e o gosto de voltar a fazer parelha com luis rodrigues, meu parceiro de viagem operática há quase três décadas! – e mais
cantar no terreiro do paço, no 25 de abril, o uma ideia de futuro, com a metropolitana, as canções do fausto, do sérgio godinho, do José afonso,…
cantar a trilogia das barcas do fernando lapa – que parceria de sucesso esta do lapa com o gil vicente – meu professor de composição de juventude, quando do conservatório do porto se ouvia o choro dos bebés recém chegados e ansiosos por povoar a cidade.
música
há que manter o frenesi e apontar umas notas à pauta: por isso me entretive a compor a música do eça é que é eça?
e do o que é uma ópera?.
juntar a isto o atelier de ópera da esart que fez o cartas a jovens poetas a partir de rilke, com solos criados pelos alunos sobre música de ravel, ligetti, cage, zappa… e uma bela opereta de Offenbach a fechar o ano.
caramba, que fartote de ano. o que poderia eu pedir mais, senão esta janela com sol de onde se vê o mar e barcos de pesca e outros à vela? talvez uma nova luz aqui em casa…pois seja: à vista desarmada… as novidades chegarão por fevereiro, pequeninas, de voz fininha, pulmões fortes, espera-se.
portanto, o que dizer senão: obrigado a cada pessoa, cada lugar, cada sorriso, cada exasperação, cada desilusão, cada palavra de apreço, cada desaprovação, cada um e cada qual, cada oportunidade, cada porta fechada, cada abertura inesperada, cada voto de confiança, cada convite, cada adiamento, cada estupefacção, cada insistência, cada minuto.
cada a cada, enche a galinha o papo.
e viva o cada vez mais cada: o frix.

17.01.2025 – Como anoitecer um pirilampo? Notas em dia de estreia
Criar porquê? Criar com quem?
Vamos lá conversar sobre isto, este famoso processo criativo, um processo de desejo permanente e de confiança intermitente. Será isto? Há-de ser algo parecido, pelaa contínua busca de algo que desconheço e o faço atravessando frequentemente zonas menos iluminadas (propícias para ver pirilampos, afinal!).
Este espectáculo, fez-se, por isso, a partir de um escuro muito escuro. De um profundo escuro, mesmo, onde nada estava previamente revelado. Bebi um texto do Didi Huberman que trazia dentro um texto do Pasolini. Bebi, como sempre, de Fellini, de Kusturica, de Scola, de Mikhailkov, da fantasia de Calvino, Gogol ou da voz do Elio com as suas Storie Tese.
Sou, principalmente e por defeito, um pouco italiano. Não tanto por feitio. Mas delicio-me com as personagens inusitadas do universo felliniano, a crueza de Pasolini, a poesia tragicómica de Calvino e as canções das Sotire Tese. Haverá placenta mais nutritiva para a gestação destas aventuras que persigo na Ópera ISTO?
Depois da colorida viagem de Michele, Gabriele e Mario, depois da ida de Einstein à barbearia de Fritz, depois da visita às Imperatrizes Felizes do Reino dos Três Narizes, apetecia anoitecer a companhia, o seu som. Apetecia-me fazer ouvir os sons em que já não reparamos há muito tempo, e aqueles pedaços de território que esquecemos, ostracizamos ou fizemos desaparecer no insaciável civilizar, urbanizar, requalificar. Não se vêm campos baldios, por perto? Não se vêem charcos? Pedaços não tocados, deixados na sua forma original, ecossistemas em autogestão. Tocamos, alteramos, ajustamos, redesenhamos.
A Sra Martucci parte, então, porquê? Procura um lugar onde não tenha horas para cantar, nem o faça por obrigação, por trabalho. Procura fugir ao previsto: pessoas que, a determinada hora, tendo pago determinada soma, querem ouvir determinada música, por determinada voz, cantada de determinada forma. Ela busca, então, o indeterminado. Ela quer ser como um flaneur, quer vaguear, vagabundear, ser somente alguém num lugar num momento, sem qualquer pré-determinação ou obrigação.
Ela quer ouvir a sua voz enquanto voz, enquanto sua voz. Ela quer encontrar pirilampos, seres selvagens, livres, que buscam lugares intocados, não determinados por nenhuma mão humana. Intermitentes, incapturáveis, silenciosos mas, por isso mesmo, musica por inventar, pura, aberta a todas as nossas fantasias.
E quando pensamos em algo que não fazemos ideia do que poderá ser, vamos pô-lo nas mãos de quem? De especialistas, de gente do determinado? Eu diria que estes objectos ainda em forma de bola de barro devem ser aquecidos pelas mãos dos amigos. Artistas, claro. Bons artistas, obviamente. Mas, sobretudo, amigos. Aqueles capazes de ouvir e dizer. Levar e trazer. Dormir e acordar com o desejo de descobrir estes objectos connosco.
Por isso vieram os amigos. A Paula, a Ângela, a Ângela (sim, duas destas), o Nuno, o David, a Ana Isabel e o Duarte. Cada um entrou, fechou a porta, ouviu e fez a sua leitura, a sua descoberta. Somos três num barquinho, um numa tenda sem corpo, uma a desenhar os perfis e três a desenhar o espaço. Mas a vida dos nossos pirilampos é todo o processo destes últimos dias, em conjunto, a cerveja, o arroz macho, o café a começar o dia, as histórias do trânsito. Este é o universo de sonho que faz da Ópera ISTO o meu lugar de pirilampos, utópico, de ilusões, de expectativas nunca cumpridas e, afinal, sempre superadas.
Que palavra resumirá isto:
Obrigado, talvez.
